Sobre livros didáticos: a fila anda

Captura de Tela 2017-05-10 às 18.53.54 Estou devendo ao colega e amigo Juvenal Savian Filho uma palavra de recepção sobre seu livro, “Filosofia e filosofias: existência e sentidos“, que ele tão gentilmente enviou-me faz já um bom tempo. Encontrei hoje um par de horas para um exame mais detido e acho agora mais um tempo para alinhavar uma pequena notícia sobre minhas impressões. Há um contexto ou dois para minha leitura do livro de Juvenal: fui convidado para um debate na Comissão da Câmara dos Deputados que discute do PL da Escola sem Partido, mas não deu jeito para ir a Brasilia; para não perder o embalo do tema, fiz uma discussão do tema com meus alunos, que terminou em uma conversa sobre o estado da arte do ensino de filosofia, sobre os manuais que usamos e coisas assim.

Depois de uma observação minha sobre certas características dos principais livros didáticos, uma aluna disse que achava que o livro do Professor Juvenal sinalizava um outro estilo ou etapa, por, eventualmente escapar das críticas que eu estava fazendo. Em síntese eu dizia que boa parte do ensino de filosofia no médio era feita sob a longa sombra de Platão, e isso gerava, entre outras consequências, uma atitude ambígua diante do cotidiano, do senso comum. A “sombra de Platão” e “o rebaixamento do senso comum” foram as expressões que usei para sugerir características de nosso estilo didático-pedagógico. Com a “sombra de Platão” eu queria indicar nosso apreço pelo mito da caverna e pela estratégia de retirar dele um eixo para o ensino de filosofia. Uma boa expressão disso está no Convite à Filosofia, da Marilena. Depois de expor o mito, atualizado mediante a comparação com Matrix, a conclusão do texto é que o filósofo vem com a missão de libertar os homens do mundo das aparências em que eles vivem, por meio da luz da verdade. O que está em destaque é essa valorização da dicotomia aparência-realidade, algo que se repete no livro. E disso resulta uma espécie de rebaixamento do senso comum e da experiência do cotidiano, como se vê na seção sobre as “características do senso comum”. Essa matrix é partilhada pela imensa maioria dos manuais usados nas escolas para o ensino de filosofia. Meu ponto, na aula, era insistir em estratégias que nos permitissem virar a página didática, já que as promissórias que levantamos com  essa matrix platônica raramente são resgatadas; Marilena, por exemplo,  afirma que entre as características da atitude filosófica consiste em “tomar distância da vida cotidiana e de si mesmo”; a atitude filosófica consiste, em seu primeiro momento, em “dizer não aos pré-conceitos, aos pré-juizos, aos fatos e às ideias da experiência cotidiana”, para depois nos interrogarmos” sobre o que são as coisas”. Quem há de não concordar com isso? O problema é a enorme generalidade dessas afirmações, e o vazio que se segue quando nos perguntamos: onde vamos quando tomamos distância de nós mesmos? E como fazemos isso? Quais são os procedimentos para que aconteça essa tomada de distância da gente em relação à gente mesmo? O “rebaixamento do senso comum” segue-se dessa sombra de Platão, e consiste no reforço da polarização “aparência-realidade”, com a consequência de que o “senso comum” vem a ser o antípoda da “atitude científica”. Daí a ênfase em filmes como Matrix, o estripamento de Sócrates e Descartes para a ênfase de afirmações como “só sei que nada sei” e o entronamento esvaziado da “dúvida radical” como guias didáticos para a classe de Filosofia.

O que tudo isso tem a ver com o livro do Professor Juvenal, Filosofia e Filosofias, Existência e sentidos? O que pude constatar é que ele passa ao largo dessas estratégias e com isso entra para uma classe diferente de livros didáticos de Filosofia. Entre as estratégias do mesmo está a usar algumas situações do cotidiano como gatilho para a reflexão; essas situações são bem caracterizadas, não esquemáticas e isso faz muita diferença. O livro está muito bem elaborado – imagino o tempo e o esforço para realizá-lo -, e mostra uma unidade interna muito boa, o que não impede o uso não sistemático do mesmo. A escolha das unidades não segue uma linha histórica, e sim temática, na qual predominam temas de filosofia prática e existencial: felicidade, amizade, desejo, amor, ética. Os tópicos ligados à linguagem e argumentação estão concentrados no inicio e são bem apresentados; temas ligados à filosofia da ciência e conhecimento concentram-se no final, mas frequentemente surgem no livro, quando o contexto assim o exige. Eu não gostei muito da ênfase do autor na palavra “desconstrução”, para caracterizar a atitude filosófica. Ele mesmo reconhece que sua substituição por “análise” é perfeitamente possível. O livro começa com temas sofisticados para exemplificar a “desconstrução”: uma comparação da física newtoniana com a einsteiniana e isso mostra que o autor visa um professor e um aluno mais exigentes. Depois de ler essa seção imaginei que haveria uma unidade sobre filosofia da ciência, e ela existe, mas apenas no final do livro. Esse tipo de tema poderia ser mais presente.

Procurei pela sombra de Platão e não a encontrei. Há Platão, mas em boa medida. Procurei pelo desprezo pelo senso comum, procurei pelo contraste forte entre aparência e realidade, e também não encontrei; há um livro muito bem escrito, recheado de textos e informações complementares, que eleva a qualidade dos livros didáticos de filosofia. Como diz Juvenal, ele tratou de não “encarar os estudantes como seres ‘sem consciência’ ou que precisam ser ‘conscientizados’, o que nos levaria a correr o risco “de ela ser percebida com algo autoritário e ideológico”. (Eu poderia acrescentar aqui: por mais estapafúrdio que seja, a ‘escola sem partido’ não surgiu do nada…). O livro de Juvenal não está sozinho nesse esforço. Ele tem a boa companhia de outros como Filosofia: temas e percursos,  organizado por Vinicius de Figueiredo, com a participação de Luiz Repa, João Virgílio Cuter, Roberto Bolzani Filho, Marco Valentin e Paulo Vieira Neto – Berlendis & Vertecchia Editores, SP., que pretendo comentar em outro momento.

Ainda há muito a fazer nessa área, mas, como diz a gurizada, a fila anda com esses livros. Para quem quiser uma sugestão sobre como lidar com a sombra de Platão e o rebaixamento do senso comum, minha sugestão é que a pessoa passe em uma livraria e compre um exemplar da A Vida do Espírito, de Hannah Arendt. Na companhia dela é possível passar a limpo esses temas e dar um passo à frente.

Anúncios

3 comentários sobre “Sobre livros didáticos: a fila anda

  1. Caro Ronai, muito obrigado por essa análise tão instigante do livro que escrevi como uma contribuição para o trabalho com Filosofia no Ensino Médio. É uma contribuição modesta, mas gerada com muito cuidado e reflexão. Procurei construir um caminho que permitisse apresentar diferentes filosofias sem entrar no discurso de “uma” filosofia única, verdadeira e definitiva, nem cair necessariamente em um radical relativismo filosófico. Isso tudo não quer dizer que eu não tenha minhas preferências filosóficas, mas eu simplesmente não conseguiria escrever um livro para convencer os estudantes a filosofar da maneira x ou y, pois, no âmbito do Ensino Médio ou dos interessados em geral, parece importante permitir que eles entrem em contato com diferentes estilos, a fim de que algum ou alguns desses estilos os toque(m) mais de perto e desperte(m) o desejo de continuar viagem. Daí vem a minha ênfase na desconstrução como um dos métodos mais clássicos, pois antes de levar os estudantes a comprometer-se com alguma linha de pensamento, convém que o professor os auxilie na aprendizagem de bem desmontar as filosofias, para conhecer seu funcionamento e somente em um segundo momento terminar em adesão ou recusa. Creio que essa é a parte mais formativa de nosso trabalho. Você percebeu bem o núcleo do meu projeto. Quanto ao tempo e à quantidade de trabalho, passei dois anos e meio dedicado à redação, escolha de imagens, legendas, exercícios, sugestões literárias, cinematográficas etc. Quis indicar apenas títulos que realmente fizeram ou fazem sentido para mim, evitando cair em sugestões fabulosas e artificiais. O desafio, porém, era me lembrar desses títulos na hora em que eu precisava… Foi um trabalho extenuante, mas estou contente com o que alguns colegas professores do Ensino Médio têm falado. Eles se referem ao livro como uma abertura de perspectivas. Os temas, em ligação direta com a História da Filosofia, dão mais liberdade ao trabalho, sem perda do rigor. E a sombra da vulgata platônica que desconfia do cotidiano, tal como você denuncia, felizmente passou longe, inclusive em benefício do que realmente pensou o bom e velho Platão. Enfim, apesar das fragilidades que o livro comporta (sou o primeiro a identificar algumas; se você também encontrar, não deixe de me dizer, por favor!), espero que ele efetivamente contribua com a atividade dos colegas professores e dos estudantes, levando a fazer que a fila dos livros continue a andar! Forte abraço! Juvenal.

  2. Caro Juvenal, acrescento aqui, de modo mais informal: eu gostei muito do teu livro, da qualidade do teu texto, das escolhas, das sugestões de trabalho interdisciplinar. E pelo que estou vendo, nossos alunos estão percebendo a diferença que teu trabalho está fazendo na área. Esse reconhecimento deles – que estão na linha de frente do ensino médio – me parece uma medida muito boa do valor do teu trabalho. Vou continuar com teu livro na mesa, mas não creio que possa identificar fragilidades. Como sabes, minha unica linha forte de crítica aos didáticos de filosofia – deixando de lado a questão da ‘conscientização’ – é o problema maior de como “deduzimos” os conteúdos que selecionamos para os livros. Eu defendo, como fiz no “Ensino de Filosofia e Currículo”, uma conexão mais sistemática com o currículo. Mas aí são outros quinhentos, e julguei que não era o caso de medir teu livro por um critério como esse. Um grande abraço, e desculpa não apenas a demora, mas também a singeleza do meu comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s