Enamoramento, amor e currículo de Filosofia

Quando escrevi “Ensino de Filosofia e Currículo” (Editor Vozes, 2008), um dos problemas que me interessava tratar era a questão dos critérios para o embasamento de propostas curriculares no ensino de Filosofia. O problema surgia porque faz muitos anos que se fala em ensino de Filosofia em todos os níveis, desde o fundamental até o universitário. Parecem ser intuitivos dois aspectos: dos sete aos 18 anos de idade, temos uma história segmentada em etapas que são discrimináveis do ponto de vista biológico e noético. A mais óbvia delas, certamente, é a capacidade reprodutiva. Junto a essa parece ser também intuitivo que temos eventos de natureza psicológica; todas as culturas ritualizam de alguma forma, as passagens da infância para a adolescência e da adolescência para a vida adulta. Se concedemos esses fatos, como isso repercute em nossas formas de tratar um currículo de Filosofia que quer abranger a vida escolar da criança desde os sete anos até o universitário?
No livro, minha fonte de inspiração foi uma frase de Ernst Tugendhat, na palestra que ele deu aqui em Santa Maria, “Não somos de arame rígido” (publicada no livro do mesmo nome). Ali ele lembra que a adolescência é o período de nossa vida no qual surge a capacidade do enamoramento. Ele escreve: “Quando uma pessoa se enamora seriamente passa-se algo que pressupõe que ela é capaz de relacionar o que importa outra pessoa com sua vida. Assim se entende que no mesmo momento em que as pessoas chegam a ser capazes de enamorar-se, também podem começar a ocupar-se com a vida e a morte.”
A tradução é um pouco dura, e eu a glosaria assim, muito livremente: somente quando o ser humano apaixona-se seriamente por outra pessoa ela entra numa etapa da vida na qual ela coloca a sua vida num contexto maior, que transcende a particularidade das relações familiares. A pessoa começa a entender que a vida de cada um está relacionado com a vida dos outros em geral (e há, nesse momento, um outro relevante especial); o que importa aqui, no conceito avançado por Tugendhat, é que a pessoa vai descobrindo aos poucos o que ele chama (explorando um conceito de Harry Frankfurt) a “terceira ordem da vontade”, aquela na qual nos perguntamos pelo sentido da vida como um todo. O tema é longo. Eu estou lembrando dessas coisas aqui porque estou em dívida, no blogue, com a discussão sobre os critérios que devemos levar em conta para diferenciar propostas curriculares nos diversos níveis. Minha linha de argumentação, nesse ponto, é que o firme apoio nesses fatos gerais do nosso percurso de vida (filogênese) é um requisito essencial para nossas propostas curriculares.

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