Arquivos da Categoria: Uncategorized

Uma didática da Filosofia é particularmente desafiadora por razões como essa: na filosofia estudamos o que já sabemos. Essa idéia vem sendo secularmente exposta, mas nem sempre é bem recebida. Sócrates foi apenas o primeiro da lista daqueles que a defenderam, de uma ou de outra forma. A versão dela que apresento abaixo é de Clarence Irving Lewis, no livro Mind and the World-Order (Dover, 1956). Foi originalmente publicada em 1929. Eu li esse livro faz muitos anos, por graça da Rejane, que me deu de presente um exemplar. Recentemente, ao ler um artigo de Mary Mothersill (O belo e o julgamento do crítico: remapeando a estética, no volume Estética: Fundamentos e questões de filosofia da arte) dei de olho na passagem. Ela não indica a fonte, apenas lembra: “C. I. Lewis observou certa vez que em filosofia nós estudamos o que já sabemos – o que certamente não se aplica à física”. O tema é espinhoso e grande, mas deve estar na agenda de discussões de didática da filosofia.

Vai aqui a passagem completa, numa tradução um tanto livre que fiz:

“Uma característica distintiva da Filosofia – assim o considero – é o fato dela ser assunto de cada um. Um homem que é seu próprio advogado ou médico estará precariamente assistido; mas cada um de nós pode e deve ser seu próprio filósofo. Isso é assim porque a filosofia lida com fins, não com meios. Ela inclui perguntas sobre o que é o bem, o que é o certo, o que é válido. E desde que, finalmente, a responsabilidade pela nossa própria vida deve pesar sobre os ombros da gente mesmo, ninguém pode delegar a outras pessoas a tarefa de responder perguntas como essas. No que diz respeito aos meios mediante os quais as finalidades da vida podem ser atingidas, procuramos a orientação dos especialistas. As ciências naturais e as técnicas que eles criam, muito embora possam também servir alguns outros interesses, são primariamente dirigidas à descoberta de tais meios. Mas a questão acerca dos fins últimos valiosos que devemos perseguir permanece como a mais pessoal e a mais geral de todas as questões.

E cada um de nós pode ser seu próprio filósofo, porque na filosofia investigamos aquilo que já sabemos. A tarefa da filosofia não é, como fazem as ciências naturais, a de aumentar a soma total dos fenômenos com os quais os homens fazem contato. A filosofia diz respeito àquilo que já nos é familiar. Saber coisas, no sentido de familiaridade, e compreender em idéias claras são, naturalmente, coisas bem diferentes. A ação precede a reflexão e  mesmo a precisão do comportamento usualmente ultrapassa a precisão do pensamento – afortunadamente, para nós. Se não fosse por isso, o senso comum ingênuo e a filosofia coincidiriam e não haveria problema. Exatamente essa tarefa de trazer à nossa clara consciência e expressar coerentemente os princípios que estão implicitamente projetados em nossas lidas com aquilo que é familiar, é a tarefa distintivamente filosófica.”

A frase me veio à mão durante as apresentações dos estagiários de Prática de Ensino, do Curso de Licenciatura em Filosofia, da UFSM. Aula de Filosofia, no ensino médio, é como amor de mãe: o que importa é a qualidade. A frase me caiu no caderno em função das queixas que alguns professores costumam fazer sobre o parco número de horas que é dedicado à disciplina em algumas escolas. As mães, nesse mundo de feminismo, competição, trabalho, etc, costumam ter dramas de consciência sobre o pouco tempo que possuem para conviver com seus filhos. Elas procuram compensar o menor número de horas com uma atenção integral aos seus bebês.

Quantidade versus qualidade, sempre é um bom tema, ou ao menos um ponto de partida para conversar sobre o assunto.

Faz muitos anos – uns vinte  - que usei pela primeira vez o conto de Max Schulman, “O Amor é uma Falácia”, em minhas aulas. Ele havia sido publicado em um pequeno livro distribuído na rede de postos Ipiranga, em uma tradução de Luis Fernando Veríssimo (As calcinhas cor-de-rosa do capitão). Naquele tempo não havia xerox – pode? – e eu digitei o conto, tirei cópias em duplicadora a álcool, essas coisas. Com o tempo passei o texto para outros professores, que também o usaram (vale lembrar que o Cabreira relutou em usar, pois parecia não apreciar muito essa ênfase em temas de lógica informal ou nessas estratégias didáticas). Ana Míriam Wuensch adaptou o conto para uma versão menor. Com o tempo ele foi devidamente digitalizado e seu uso foi se ampliando. Uma das minhas alunas que o apreciou foi a Raquel Guerra, que fazia Filosofia e Artes Cênicas. Raquel foi responsável por uma montagem do texto para o teatro, que teve muitas apresentações aqui em Santa Maria. Ela também apresentou o texto em Vale Vêneto, no evento sobre memória. Paulo Faria fez a apresentação do grupo. Rimos muito naquela noite. Pois agora Raquel me escreve para dizer que, junto com alguns amigos, fizeram um filme baseado no texto. O filme foi gravado no Campus da UFSM e está divido em seis partes. Eu assisti e me diverti demais.

Vão aqui os links no Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=cWBBqjYwz9A

http://www.youtube.com/watch?v=0×1WiL5dW6k

http://www.youtube.com/watch?v=FvPk-z1UPJQ

http://www.youtube.com/watch?v=H7MQ_LXnEbw

http://www.youtube.com/watch?v=tH9lMjuX5ak

http://www.youtube.com/watch?v=1KyPp0G36O0

 


plato-19790927056R.2Segundo Habermas, o debate filosófico dos tempos modernos na forma de um júri decidiria sobre a seguinte questão: “como é possível adquirir um conhecimento digno de crédito?” Foi esta passagem que me chamou a atenção pela primeira vez para este possível uso derivado da palavra: ter crédito, crediário, creditar na conta; e também ser uma pessoa acreditada. É curioso o fato de um intelectual ao estilo de Habermas aceitar tão singularmente o uso de “um conhecimento…ter crédito”, e não explorar as outras consequências dessa comparação bancária. Quando eu peço crédito, a primeira coisa que me perguntam é acerca de quanto crédito eu preciso; as garantias que eu dou em troca devem ser proporcionais ao crédito que peço. Não há algo como uma garantia absoluta, por exemplo, pois além dela ser dada em proporção ao crédito concedido, os bens que eu dou em garantia ou meu fiador também estão sujeitos à problemas: meu fiador pode morrer ou o terreno que eu dei em garantia ser desvalorizado por uma obra próxima, etc. A concessão de crédito sempre envolve riscos, maiores ou menores, proporcionais ao empréstimo concedido. Por que os filósofos aparentemente tem tanta resistência em levar em conta estes fatos e flertam com tanta facilidade com concepções, digamos, atacadistas, sobre o conhecimento? A caricatura de Platão é do David Levine.

Troupe do Edipo (1 of 1)Aqui ao lado está o grupo que fez a leitura do Édipo Rei hoje. Na semana passada foi a turma do Prometeu Acorrentado (estou agora sem as fotos deles, mais adiante eu coloco por aqui). Os dois grupos foram simplesmente ótimos. Maravilhosos.

Edipo (1 of 1)

Felipe (1 of 1)

É pouco adequado falar-se em didática geral, já que pareceria haver algo como “aprendizagem em geral”; a aprendizagem é sempre de algo, por mais geral que seja esse algo. Aprendemos a nadar ou nos relacionar melhor, a ler e escrever em tibetano, que a vida é um combate que aos fracos abate ou que a Terra está derretendo. Quando se falava em didática geral o que se tinha em mente eram observações gerais de antropologia e psicologia sobre a aprendizagem humana; o fenômeno intrigante da plasticidade, a segunda natureza humana, as características de nossos esquemas conceituais e cognitivos. Quando temos diante de nós a questão do currículo e do ensino-aprendizagem, cabe falar no plural, cabe pensar sobre as didáticas exigidas por cada uma das áreas de saber e de atividades que encontramos no cotidiano escolar. E isso é assim pois não podemos esconder o fato concreto que o espírito humano tem um conjunto de realizações – que incluem coisas como o teorema de Pitágoras,  a Mona Lisa, a emancipação feminina e enfraquecimento do conceito de raça, os princípios jurídicos da igualdade e a separação dos poderes, a Nona Sinfonia e a teoria da relatividade – que devem ser preservadas pela beleza e importância intrínseca que possuem. Podemos imaginar essas realizações como um tesouro acumulado pela humanidade; e a humanidade tem interesse não apenas em preservar esses tesouros, mas preservar as formas de construí-lo e conservá-lo. Para isso precisamos de situações e processos de ensino e aprendizagem: de didáticas.

A diversidade de áreas de saber e atividades que encontramos no currículo escolar não se origina de um capricho burocrático. Cada uma delas indica uma faceta peculiar da curiosidade humana; cada uma tem características e nuances especiais; isso faz com que o processo de transmissão da herança de realizações do espírito humano exija procedimentos e estratégias igualmente peculiares a cada área de saber e atividades. Esse é o campo das didáticas, a arte de transpor, traduzir, transcriar o saber humano; a didática tem aspectos de ciência (pois implica um diálogo com a psicologia, por exemplo) e tem aspectos de técnica (pois revela-se, em parte, como um instrumento) mas o seu coração é arte (pois implica o domínio de regras aplicadas em casos particulares); e ela deve ser entendida igualmente como uma praxis ( pois trata-se de uma  ação humana que se dirige ao outro visando-o em sua autonomia. É quase incompreensível um certo descaso que por vezes se vê em relação à didática, pois  ela ocupa na vida humana um lugar de essencial importância, já que somos radicalmente dependentes de processos de aprendizagem. 

Pensar o papel da escola e da filosofia no currículo escolar cada vez mais será orientado por um sentimento de desconfiança contra a multiplicação dos mundos e das culturas. Uma vez existiu uma tendência de didática da matemática chamada de “etnomatemática”. Entre nós, povo do ensino da filosofia, por vezes parece existir uma simpatia por algo que se poderia chamar de “etnofilosofia”, uma saída didático-metodológica de aclimatação dos problemas da filosofia ao cotidiano dos grupos por ela atingidos na escola. Trata-se de uma saída romântica que tem por base de verdade algo trivial, a saber: ninguém aprende nada sem possuir certas referências, ganchos, subsunçores conceituais.  Paulo Freire elaborou a partir disso. O tema é longo. A direção em que gostaria de pensá-lo está expressa em passagens como essa que transcrevo a seguir:

“As palavras são os símbolos mais sutis que possuímos e nosso tecido humano depende delas. A natureza viva e radical da linguagem é algo cujo esquecimento nos coloca em risco. É completamente equivocado falar-se, por exemplo, em ‘duas culturas’, uma literária-humana e outra científica, como se ambas tivessem uma condição igual. Existe apenas uma cultura, da qual a ciência, tão interessante e tão dolorosa, é agora uma parte importante. Mas o aspecto essencial e fundamental da cultura é o estudo da literatura, pois ali ocorre uma educação sobre como descrever e compreender situações humanas. Somos humanos e somos agentes morais antes de sermos cientistas, e o lugar da ciência na vida humana deve ser discutido em palavras.”

Quem escreveu isso foi Iris Murdoch, em The Idea of Perfection”.