O Pibid e a equação do Professor Helder Eterno (II)


Tivéssemos no Brasil mais gente com o entusiasmo e iniciativas semelhantes às do Professor Helder, as coisas andariam mais e melhor. Simpatizei com ele, mesmo discordando de sua estratégia retórica, demasiadamente preto versus branco para meu gosto de velho ranzinza. “Escola ruim” versus “nova cultura escolar via Pibid”, por exemplo.
Isso pouco importava, no entanto. O que importa é essa iniciativa da Capes que coloca nas universidades publicas e comunitárias 26.000 bolsas e quer chegar logo a 45.000 e um dia vai somar 100.000 bolsas. Nunca vimos nada parecido e isso é uma iniciativa relevante para reverter a falta de interesse pelo magistério, ponto.
Uma pulga me mordeu a orelha, no entanto, e ela não caiu do pelo dos macacos-prego que vivem no campus da UFG.
No final da tarde encontrei o Professor Helder na entrada do prédio do evento e pude conversar sobre a pulga. O que expus a ele foi o seguinte: em uma mesma escola publica temos a participação de diversas equipes de Pibid de uma mesma universidade. (Aqui mesmo na UFSM temos escolas com muitas equipes trabalhando ao mesmo tempo: Física, Química, Biologia, Filosofia, Artes, Letras, Matemática. Elas trabalham ao mesmo tempo. Mas elas trabalham juntas? Elas, por algum momento, trocam idéias entre si, para planejar uma integração mínima em suas ações? Ou cada uma delas planeja suas ações na solidão licenciada? A realidade mais usual é que cada equipe cuida de si mesma. Cada equipe Pibid de uma mesma escola prepara seus projetos sem conversar com as demais equipes. Essa é a realidade mais usual. Na minha universidade, tanto quanto sei, não há um espaço institucional criado para que as equipes Pibid, de uma mesma escola, conversem entre si, troquem impressões sobre os diagnósticos que fizeram e sobre seus planos de trabalho. Cada um tem seu corredor de trabalho e eles são apenas paralelas. Se essa é a realidade do primeiro momento do Pibid, não deveria a Capes estimular, induzir, provocar, acenar, pedir, recomendar, que houvesse essa integração entre os Pibids de uma mesma universidade e de uma mesma escola?
Ele me ouviu com atenção e pareceu concordar. Mas apenas em parte: afinal, disse ele, isso é algo que depende da iniciativa das universidades.
Por certo, retruquei. Mas quem induz um tanto pode induzir outro tanto. Qual o mal de recomendar, pedir, induzir, acenar, provocar isso?
E por aí fomos conversando, durante um bom tempo. Acho que fracassei em expor meu argumento, no calor da tarde de Goiás. Eu queria apenas dizer que a equação que não fecha, a meu ver, é essa: se as equipes Pibid de uma mesma universidade, que vão para a mesma escola, derem mostras que não conversam entre si, a escola vai dar um troco muito duro: ela vai pensar: “vocês, das universidades, são que nem a gente: cada um por si.
E a tal da renovação da cultura escolar, que tanto queremos, não viria, nessa hipótese, desse milionário programa. Ele seria apenas mais um tanto do mesmo.
Insisti, no GT de Filosofia e Sociologia e insisti com o Professor Helder, que o Pibid está diante de uma encruzilhada: se ele crescer (e vai crescer muito) sem esse desafio em seu horizonte, pensando que uma nova cultura escolar surge pela mão invisível das escolhas isoladas, será apenas isso: mais da mesma atitude que gera o atomismo na tal “escola ruim”. Insisti mais uma uma vez: todos os pibidianos queixam-se das mesmas coisas; por exemplo, que os alunos tem sérios déficits de leitura e escrita. Vai ver que cada licenciatura vai tentar fazer algo por isso sem ver como essas tentativas podem ser mais do que justaposição de esforços?
Nos despedimos um tanto às pressas, dentro do automóvel que o conduzia ao aeroporto e à mim, ao hotel.
Começou a cair uma chuva forte.
Bem que tentamos, por algum momento, ir para a mesma direção, pensei.

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