Conjuntura e problemas do ensino de Filosofia (II Enal, Goiânia)


O tema proposto pelos organizadores inicialmente foi esse do título acima. Depois foi alterado para “Avanços, impasses e desafios na formação de professores de Filosofia e Sociologia”
Os principais tópicos que abordei, na mesa que dividi com Julia Polessa, foram esses:
1. Sobre a conjuntura geral do ensino: procurei destacar o fato que a educação finalmente entrou de forma mais constante e consistente na agenda política e na imprensa. Os principais temas são a qualidade de ensino, medida cada vez mais pelos mais variados tipos de testes em ambitos nacionais e regionais e a necessidade de um novo patamar de profissionalização docente, em termos de salários e de tempo de trabalho (cargas horárias compatíveis com qualidade de ensino); (pagamento de “hora-atividade”). Outro tema é a orientação menos problemática do ensino médio para o mercado de trabalho (ampliação do ensino profissionalizante) e para a formação universitária, processos seletivos, etc.; depois de ter sido atingida a universalização no ensino fundamental e de um importante avanço no médio, o ensino médio entra na pauta educacional como um setor que busca qualidade e uma nova identidade (orientação) menos tensa entre profissão e preparo geral para a universidade.
Um componente importante da conjuntura política brasileira, com repercussão no campo educacional, é o comportamento da nova classe C. São 100 milhões de pessoas, com renda mensal familiar entre 1000 e 4.500; em 2010, sobre 190.8 milhões, ela representa mais da metade da população brasileira. A classe C está aos poucos mudando o perfil de expectativas e protestos na educação, pois, ao contrário do que aconteceu com a classe média que lhe antecedeu, para ela não será tão simples migrar os filhos para uma rede privada. Esse perfil tem as seguintes características: ele dá uma forte sustentação ao crescimento do ensino profissionalizante, pressiona por qualidade no setor público e mais adiante poderá fazer surgir novos segmentos no setor privado, igualmente submetidos a pressão por qualidade. A classe C pode contribuir para diminuir a dimensão cartorial dos diploma e do ensino.
2. Sobre a conjuntura da recente introdução obrigatória da disciplina: a disciplina foi introduzida no currículo escolar em um momento de crise pedagógica; os componentes dessa crise são os seguintes: o progressivo abandono da pesquisa em didática em favor de estudos políticos e sociais da educação gerou um déficit generalizado em metodologia de ensino e um déficit ainda mais generalizado na Filosofia, pois o trabalho formativo costumava ser feito em um horizonte de desemprego como docente, mais voltado para a pós-graduação. Particularmente, vivemos um momento de fraca cultura curricular e escolar; a idéia de curriculo está esvaziada. O currîculo costuma ser pensado como uma relação de conteúdos. Igualmente foram esvaziados os estudos de psicologia do desenvolvimento, da aprendizagem, da adolescência, etc.
Um símbolo dessa perda de cultura pedagógica é a renuncia à mistica do professor, que preferiu por um bom tempo ser chamado de “trabalhador em educação”.
Outros pontos mais específicos foram esses:
A introdução massiva da disciplina de filosofia faz com que haja muita improvisação de professores nas escolas e isso contribui para que a imagem da mesma continue sendo a de generalidades humanizantes.
A disciplina é planejada predominantemente a partir do gosto e das possibilidades didáticas imediatas. A pergunta básica, essencial, sobre os critérios que usamos para selecionar conteudos e atividades na disciplina continua sendo pouco tratada.
O argumento da formação crítica e cidadâ, que foi amplamente usado na introdução da disciplina, foi esvaziado, na medida em que foi apropriado e realizado por todas as demais atividades escolares.
3. Sobre a conjuntura que se abre: a escola média brasileira está sob fogo cerrado: qualidade, profissionalização, processos seletivos mais racionais (Enem, e não vestibulares locais). Como responderemos ao desafio de construção de uma cultura pedagógica adequada ao momento? Qual é o tipo de sensibilidade que teremos diante desses contextos, no nosso planejamento curricular? Nossos planos de ensino para o nivel médio continuarão fortemente centrados em ética e política e platão? O quanto e como respeitaremos o fato que nossa disciplina é um protocolo de reflexão no qual importam mais do que os resultados, os procedimentos? Quais decisões curriculares refletirão isso?
Comecará a surgir com mais força a pergunta sobre os reais benefícios da disciplina e sobre os procedimentos particulares e específicos capazes de promover “consciência crítica e cidadania”.
Como os diretores da escola média recebem a disciplina? Basta ver a reação deles para a gente ter uma idéia da crise que vivemos. Ele dá graças por ter um professor. Esse, entra na sala de aula para (atender a lei) e não recebe as “instruções curriculares”. E surge assim o risco de que uma disciplina essencialmente reflexiva fique alheia ao planejamento curricular da escola. A maioria delas não tem um programa para Filosofia. Se cada um de nós planejar o ensino a partir do critério “cada um faz o que gosta” (ou a partir do livro didático disponível), a chance de acerto é semelhante à loteria.
Quando cada um faz o que gosta…
A foto é do Renato Mendes Rocha, filósofo e jardineiro. Obrigado, Renato.

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Uma resposta para Conjuntura e problemas do ensino de Filosofia (II Enal, Goiânia)

  1. José Lourenço disse:

    Considerações muito apropriadas! Penso, há tempo, que a questão crucial é “o que ensinar?”.

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