O colega parecia pensar que falar alto pode ser parte de um bom argumento. O Professor P, num gesto de defesa durante a reunião interminável na Universidade, entrou em modo depressivo, misto de tristeza e covardia oportuna. Era uma depressão suave e paralisante; ela subiu pelo corpo do velho professor e terminou em areia finíssima sobre seus olhos. Seus pensamentos oscilavam entre idéias obsessivas e tropéis confusos. Num desses galopes da memória ele surpreendeu-se a pensar, a repetir como um autômato desregulado uma pergunta que ouvira ou lera fazia muito tempo. “A Matemática precisa de fundamentos?” Ele a lera em algum Ludwig, que havia comprado essa briga e contra muitos sustentara que não. O Professor P. lembrava vagamente da brigalhada, lembrava o custo da aventura. Milhares de professores de matemática ao redor do mundo foram convidados a reinventar suas estratégias didáticas a partir da idéia que ela podia ser, em algum sentido, fundamentada na Lógica. Foi a febre de contar matemática a partir de teoria de conjuntos. Deu no que deu. Um dia, farta daquilo, a Matemática dispensou a gentileza, agradeceu, ficou sem fundamentos e passou melhor, obrigada. E seguiram-se outros atropelamentos de perguntas: a Geografia precisa de fundamentos? A Física precisa de fundamentos? A Biologia precisa de fundamentos? A coisa parecia ficar evidente por si mesma, nenhuma área do conhecimento humano precisa de fundamentos, em nenhum sentido. Essa conversa de fundamentos não seria apenas uma farinha nos olhos? Ele gostaria de dizer, imitando o Ludwig, que cada uma delas vive de si mesma e de suas relações com outras áreas, dentro de um complexo tecido de investigações e práticas humanas. Holismo, holismo, eis a prece matinal. Um estudante de Filosofia ou de História ou de Ciências Sociais aprende isso logo nos primeiros semestres; afinal, nenhuma delas tem fundamentos em nenhum sentido. Qual seria o fundamento da Filosofia ou da História ou da Sociologia? Um tecido discursivo que seria anterior a cada uma delas? Uma pré-filosofia ou uma pré-história ou uma pré-sociologia? Um ante-predicativo? E assim a reunião foi chegando ao fim, no final da tarde de uma sexta-feira, num final de outubro; ele foi sentindo-se o mais desdentado dos tristes tigres e, cansado de uma semana de intenso trabalho e de não menores preocupações, adormeceu por alguns segundos, não sem antes se perguntar porque é que, afinal das contas, a educação precisa de fundamentos?
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2 Comentários
não compreendo, diz que uma disciplina não precisa de pontos de partida, de nenhum tipo, em nenhum sentido? (lembro de discussões que já passaram por aula, quando se falava sobre o tal ludwig, e que me deixaram tão incomodado como agora). Faço ainda uma outra pergunta que de alguma maneira se relaciona com essa: aprender não é coletar informação, e coletar informação não é adotar “fundamentos”?
Bruno, essas aspas em “fundamentos” parecem indicar um sentido muito especial para a expressão, que fica a léguas de distância do fundamento com efe maiúsculo que a Matemática recusou diante da lógica. Nenhuma disciplina tem um ponto de partida; elas tem muitos, e esses não são fundamentos, no sentido em que o fundamento de uma casa são, claramente, seus alicerces, que em sentido muito claro são distintos dela. A pergunta do personagem parece ser pelos fundamentos da Educação, que alegadamente seriam encontrados na Filosofia, Sociologia, Psicologia. Mas o que são essas disciplinas? Em primeiro lugar, cada uma delas é um gigantesco campo de investigações e reflexões; acumulam resultados maravilhosos e controversos e polêmicos; em que sentido razoavel se pode dizer que a Filosofia oferece Fundamentos para a Educação? Isso parece incomodar o tal professor, creio eu, no sentido que se isso fosse razoável, o campo da educação teria sua autonomia subtraída três vezes, coisa que parece triste. Quais seriam os fundamentos da Sociologia? Uma coisa é uma consciência acerca de limites e métodos de investigação. Mas dizer que a Sociologia tem fundamentos parece um golpe de braço. Ela tem métodos, limites, formas de abordagens, princípios de investigação; mas essas coisas são fundamentos para ela apenas em sentido derivado; o ponto do professor parece ser o seguinte: tudo aquilo que é da ordem da práxis não pode ter fundamentos, pois isso seria uma contradição com a própria idéia de praxis – atividade humana que visa o outro na sua autonomia e indeterminação -. A nocão de fundamento funciona bem no mundo das construções, no exame de estruturas argumentativas, coisas que funcionem dentro de uma certa tecnicalidade.
By the way, coletar informação não é aprender, pois no aprender está em jogo uma atitude de discernimento não necessariamente contida na atitude de coleta. Coleta e estocagem de informação são um passo no processo de aprendizagem.
De resto estás certo, eu acho, em dizer que as disciplinas tem pontos de partida; mas fundamento é uma palavra forte que vai bem além de “pontos de partida”; eu ia dizer que é uma expressão demasiadamente “cartesiana”… mas deixa para outra hora.