De onde pode vir a graça na aula de Filosofia? Uma expectativa usual do aluno é que em filosofia não há verdades, que a filosofia é uma coisa subjetiva e que não cabe haver prova de filosofia, porque nenhuma resposta estaria errada. De outro lado eles facilmente se engajam em debates com posições alternativas sobre a natureza das convenções, sobre a moralidade das leis, sobre a verdade e a mentira, sobre a existência de Deus ou a subjetividade do gosto artístico. A lista de temas como este, como se sabe, é enorme. Temos aqui um desafio da didática da filosofia; de um lado, a filosofia possui temas que capturam com naturalidade a atenção do aluno; de outro lado, se esse temas são mal-tratados, resvalam no ralo das opiniões. A graça da aula de filosofia pode começar por aqui: como devemos tratar de temas complexos e inacabáveis sem cair nos dogmatismos? Uma das saídas é a ênfase – depois de engatada a discussão – no exame dos conceitos instrumentais ali presentes. Isso quer dizer que devemos evitar o planejamento curricular que faz a sequencia tradicional: um tanto de aulas introdutórias de lógica e definições de filosofia, depois um tanto de aulas de teoria do conhecimento e outras semelhantes, e finalmente aulas de ética e de política. Esse esquema é semelhante a uma refeição na qual primeiro a gente usa os talheres e o prato, depois come a comida. Essas sequencias tradicionais tornam o estudo dos instrumentos artificial, vazio. E, como contrapartida, o estudo posterior dos temas éticos e políticos fica fragilizado e sujeito a um clima de pouco distanciamento crítico. A grande parte dos temas da filosofia provoca no aluno um forte envolvimento pessoal; esse tipo de atenção pode prejudicar a atenção dele ao processo argumentativo; assim, o professor de filosofia deve buscar um ponto ideal de envolvimento e estranhamento, ao mesmo tempo. Isso pode ser obtido com o deslocamento didático da atenção do aluno, do tema ou problema, para a ossatura argumentativa presente. Com isso eu quero dizer que o critério para a seleção dos conceitos instrumentais a serem examinados é dado pelo tipo de tema ou problema em discussão; não comemos sopa em prato raso com garfo. Um princípio da didática da filosofia poderia ser esse: o cuidado com os instrumentos se dá no uso efetivo deles.
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3 Comentários
Parece ser desafiador fazer com que o aluno perceba que não vale tudo, nem que no fim filosofia seja mero conjunto de opiniões na qual cada um tem a sua e pronto (seja porque a filosofia não é conjunto de opiniões de uma pessoa, seja porque não é sinônimo do relativismo absoluto). O que costuma em geral animar e logo em seguida desanimar os alunos é não haver respostas fechadas. Os alunos adolescentes gostam de doutrina e catequese. Talvez esse seja um bom método. Catequisá-los para depois de feito o trabalho poder mostrar outras visões ou mesmo críticas.
Podemos comer sopa numa caneca_ ou beberemos a sopa?
Adolescentes gostando de catequese? Em qual lugar do universo?