A frase é de Bento Prado Jr. e está em um dos seus últimos textos. Bento escreveu uma apresentação para o livro de Jeanne Marie Gagnebin, Lembrar escrever esquecer (Editora 34, 2006). Depois de dizer que Jeanne Marie faz um vaivém revelador entre o passado e o presente, Bento acrescenta:

“Esse itinerário nada linear é tanto mais iluminador quanto nos auxilia a libertar-nos daquilo que Kant chamava de Schulphilosophie (filosofia escolar), devolvendo-nos ao domínio do pensamento, ou seja, ainda recorrendo ao vocabulário kantiano, às vias da Weltphilosophie (filosofia universal). Somos assim convidados a caminhar a contrapelo da escolarização da filosofia que é indissociável de sua tecnificação, fazendo-nos lembrar de uma frase do saudoso amigo e lógico argentino Andrés Raggio, quando dizia que que ‘num texto de filosofia, o índice de tecnicidade é inversamente proporcional ao de seu interesse propriamente filosófico’. O interesse propriamente filosófico das técnicas conceituais não está justamente em seus limites, como insistiam Platão em sua Carta VII e Wittgenstein em todos os seus escritos?” 

Agora, a Jeanne Marie. Todo o livro é muito bom, muito bem escrito e denso e provocador e estimulante. O ensaio sobre o qual estou debruçado é o último, “As formas literárias da Filosofia”. Ali ela retoma e amplia uma idéias de Gottfried Gabriel, que nota na história da filosofia um certo movimento pendular: “quando se aproxima demais da poesia, a filosofia envereda novamente para o lado da ciência – e quando esta última ameaça abocanhá-la, ela se volta novamente para uma dimensão de sabedoria mais poética. Esta observação tem o mérito de apontar para o estatuto ambíguo da atividade filosófica, desde seu início grego.”

Expus o mais demoradamente o que pude essa ambiguidade no meu livro, Ensino de Filosofia e Currículo. Coloquei muitas fichas nesse tema, o que incluiu expor a distinção indicada pelo Bento Prado, entre Schulphilosophie e Weltphilosophie.  A primeira, como lembra Jeanne Marie, “ligada especificamente ao seu ensino, da Academia de Platão até as universidades de hoje (..) mais técnica e erudita” e a segunda, “um exercício de meditação, uma prática teórica que retoma os problemas fundamentais da existência humana”. 

Estou voltando ao tema porque depois do evento me dou conta que deveria ou que poderia ter mais uma vez ter começado minha exposição lembrando essa distinção kantiana, da qual fiz tanto caso no livro. Depois de expor esse ponto fica mais fácil dizer que uma parte substantiva das aulas de filosofia no médio deve ser dedicada ao que a filosofia tem de essencialmente público e transmissível, a sua dimensão – como disse Kant – escolar.  Mas começo a achar que a discussão sobre ensino de filosofia tem um componente de “politicamente correto” que poucos estão prontos para admitir. Isso explica o usual abuso das conversas sobre “não se ensina a filosofar”, estratégia da qual, no evento, fomos poupados. As razões disso, no entanto, são bem complexas de entender. 

Acho que estamos chegando a um bom lugar. Ninguém aguenta mais esse discurso do “ninguém ensina a filosofar”. Nesse contexto, uma frase como essa do Bento nos faz pensar mais.

5 Comentários

  1. Se eu entendi bem teu ponto, Ronai, o discurso do “ninguém ensina a filosofar” está vinculado ao sentido universal de filosofia. O pessoal reclama que não se tocam nos problemas “de verdade” (não só os da verdade) e tudo o mais. Mas olha, também existem (eu conheço pelo menos dois) os que defendem a dimensão escolar com a mesma força, pelo menos se ela for entendida como abuso da tecnificação (acho que o que eu não entendi foi, na frase do Bento, a parte: “Somos assim convidados a caminhar a contrapelo da escolarização da filosofia que é indissociável de sua tecnificação”. É a escolarização que é indissocieavel da tecnificação?). Então, se devemos dar mais atenção ao sentido escolar, podemos fugir da tecnificação? Tem uma gente defendendo que o médio tem que ser um mini superior, que não podemos abrir mão dos textos, que sem eles não podemos fazer qualquer tipo de filosofia… Eu, tu sabes, resisto um pouco. Mas penso que pra fazer sentido essa resistência precisa vir acompanhada de um plano mais ou menos nos moldes da tua classificação em história, problemas e método vinculada aos níveis superior, médio e fundamental. E ver o quanto de técnica é necessário em cada um deles. Difícil mesmo é conseguir pensar em exploar as margens, ou limites das técnicas conceituais (que, de acordo com Bento, são o que interessa) quando não se enxerga bem pra que lado elas ficam…

  2. Um mínimo de tecnificação seria um dos eixos da escolarização, isso me parece cada vez mais evidente. Tecnificação quer dizer apenas levar o aluno a se apropriar de certos instrumentos e distinções conceituais pedestres. O uso de textos faz parte da aula, faz parte da formação do aluno, mas é um aspecto da riqueza formacional. A história da filosofia precisa ser compatibilizada pelo professor com a questão da verdade em filosofia. Aristóteles brigou com Platão e acho que não se trata apenas de desfilar os dois. A gente tem que achar argumentos para se decidir. E isso a história, por si só, não nos dá.

  3. Sim, sim. Eu entendo e concordo com esse mínimo denominador comum que a tecnificação oferece. Cada disciplina tem o seu, inclusive. E tem uma que consegue ver as semelhanças e diferenças entre esses mínimos. O que eu não tinha sacado era se o texto do Bento deixava lugar pra a consideração dessa necessidade, já que ele afirma que é positivo libertar-se da filosofia de escola através do “itinerário nada linear”. Entende?
    Quando eu lia citação ela pareceu não ter ajudado a defender a filosofia escolar, mas o contrário. Mas agora acho que entendi melhor.

  4. De fato o Bento não parece deixar esse lugar, e falar em “libertar-se” dá o tom. Eu é que quis arrancar dele essa percepção da dimensão técnica. O que me incomoda em geral e não apenas no texto do Bento, é usar Kant para desprezar a dimensão técnica da filosofia.

  5. Eu não tinha lido o título da postagem. Que besta.


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