Arquivos Mensais: Maio 2009

 

Está no sítio do MEC a matriz de referência para o Enem 2009. Reproduzo abaixo os “eixos cognitivos que são comuns a todas as áreas de conhecimento:

Dominar linguagens (DL): dominar a norma culta da Língua Portuguesa e fazer uso das linguagens matemática, artística e científica e das línguas espanhola e inglesa. 

Compreender fenômenos (CF): construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas. 

Enfrentar situações-problema (SP): selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema. 

Construir argumentação (CA): relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente. 

Elaborar propostas (EP): recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural. 

Como era de se esperar, na parte dos conteúdos, a disciplina de Filosofia não está presente. Prevaleceu o bom senso, afinal das contas. Introduzida nas escolas na segunda metade de  2008, muitos alunos concluintes do médio em 2009  não a tiveram ainda. Esse argumento não valerá mais a partir de um ciclo de três anos.

O livro Territórios da Prática Filosófica, publicado pela Editora da UFSM, organizado pela Profa. Elisete Tomazetti e pela professora Simone Gallina, será lançado amanhã, oito de maio, as 18 horas, na Feira do Livro de Santa Maria. O livro conta com a participação dos professores Albertinho Gallina e Frank Sautter, do Departamento de Filosofia da UFSM. É mais uma demonstração da presença do pessoal de Santa Maria no cenário nacional de discussão e elaboração de propostas e contribuições para o ensino de Filosofia no nível médio. Vamos lá!

“Então, adeus às Formas platônicas. Elas são teretísmata, e nada têm a ver com a nossa fala.” (Analíticos posteriores, 83a32-4). Teretísmata são sons desprovidos de sentido que fazemos quando cantamos para nós mesmos; podemos traduzi-los como ‘la-lari-la-las’.”

De longe, o capítulo oito do livro de Martha Nussbaum, sobre “A salvação das aparências segundo Aristóteles” – que está na parte III, “Aristóteles: a fragilidade da boa vida humana” é uma festa para o espírito, como já disse. Qualquer um interessado no tema do método em filosofia, no tema do método em Aristóteles, no tema da demonstração dos primeiros princípios vai passar por uma experiência intelectual de primeira grandeza ao ler esse livro de Martha. Pode ir direto, depois de ler o prefácio, à parte III, sobre Aristóteles, para depois voltar. Martha, que não esconde sua admiração por Aristóteles, escreveu o que de mais importante eu já li sobre esses temas no velho estagirita.

O tema da dimensão escolar ou escolástica da Filosofia, que aparece na postagem abaixo, está no Manual dos Cursos de Lógica Geral, de Immanuel Kant, do qual existem duas edições e traduções no Brasil. Uma, pela Tempo Brasileiro, traduzida por Guido Almeida, outra pela Editora Unicamp, numa tradução de Fausto Castilho. 

Eu gostaria de saber como surgiu uma tradição de desprezo pela dimensão escolar da filosofia, combinada pela beatificação da dimensão “universal”. Do texto de Kant é que não é. Isto é, de uma certa maneira vesga de ler o texto, quem sabe? Em todo o caso, o próprio Kant ofereceria um remédio para essa doença infantil dos debates sobre ensino de filosofia: as “degenerações do gosto predominante: o pedantismo e o mundanismo. O primeiro pratica as ciências apenas para a escola e limita dessa maneira seu uso; o outro as pratica só para o ambiente das reuniões e da companhia ou para o mundo (…).” Manual, AK46.

A frase é de Bento Prado Jr. e está em um dos seus últimos textos. Bento escreveu uma apresentação para o livro de Jeanne Marie Gagnebin, Lembrar escrever esquecer (Editora 34, 2006). Depois de dizer que Jeanne Marie faz um vaivém revelador entre o passado e o presente, Bento acrescenta:

“Esse itinerário nada linear é tanto mais iluminador quanto nos auxilia a libertar-nos daquilo que Kant chamava de Schulphilosophie (filosofia escolar), devolvendo-nos ao domínio do pensamento, ou seja, ainda recorrendo ao vocabulário kantiano, às vias da Weltphilosophie (filosofia universal). Somos assim convidados a caminhar a contrapelo da escolarização da filosofia que é indissociável de sua tecnificação, fazendo-nos lembrar de uma frase do saudoso amigo e lógico argentino Andrés Raggio, quando dizia que que ‘num texto de filosofia, o índice de tecnicidade é inversamente proporcional ao de seu interesse propriamente filosófico’. O interesse propriamente filosófico das técnicas conceituais não está justamente em seus limites, como insistiam Platão em sua Carta VII e Wittgenstein em todos os seus escritos?” 

Agora, a Jeanne Marie. Todo o livro é muito bom, muito bem escrito e denso e provocador e estimulante. O ensaio sobre o qual estou debruçado é o último, “As formas literárias da Filosofia”. Ali ela retoma e amplia uma idéias de Gottfried Gabriel, que nota na história da filosofia um certo movimento pendular: “quando se aproxima demais da poesia, a filosofia envereda novamente para o lado da ciência – e quando esta última ameaça abocanhá-la, ela se volta novamente para uma dimensão de sabedoria mais poética. Esta observação tem o mérito de apontar para o estatuto ambíguo da atividade filosófica, desde seu início grego.”

Expus o mais demoradamente o que pude essa ambiguidade no meu livro, Ensino de Filosofia e Currículo. Coloquei muitas fichas nesse tema, o que incluiu expor a distinção indicada pelo Bento Prado, entre Schulphilosophie e Weltphilosophie.  A primeira, como lembra Jeanne Marie, “ligada especificamente ao seu ensino, da Academia de Platão até as universidades de hoje (..) mais técnica e erudita” e a segunda, “um exercício de meditação, uma prática teórica que retoma os problemas fundamentais da existência humana”. 

Estou voltando ao tema porque depois do evento me dou conta que deveria ou que poderia ter mais uma vez ter começado minha exposição lembrando essa distinção kantiana, da qual fiz tanto caso no livro. Depois de expor esse ponto fica mais fácil dizer que uma parte substantiva das aulas de filosofia no médio deve ser dedicada ao que a filosofia tem de essencialmente público e transmissível, a sua dimensão – como disse Kant – escolar.  Mas começo a achar que a discussão sobre ensino de filosofia tem um componente de “politicamente correto” que poucos estão prontos para admitir. Isso explica o usual abuso das conversas sobre “não se ensina a filosofar”, estratégia da qual, no evento, fomos poupados. As razões disso, no entanto, são bem complexas de entender. 

Acho que estamos chegando a um bom lugar. Ninguém aguenta mais esse discurso do “ninguém ensina a filosofar”. Nesse contexto, uma frase como essa do Bento nos faz pensar mais.

“Não é preciso examinar todo problema nem toda tese, senão que somente aquela que possa atrapalhar ou embrulhar alguma das que necessitam de argumento, não as que necessitam castigo ou percepção. Porque as pessoas que se encontram atrapalhadas para saber se se deve honrar os deuses e amar ou não os seus pais necessitam  de castigo, enquanto que aqueles que se encontram impedidos de saber se a neve é branca ou não, necessitam de percepção.”

O texto é de Aristóteles, Tópicos, Livro I, cap. 11, 105.

Uma interessante reflexão sobre esse tema que também marcou o evento pode ser feita a partir de um clássico. No livro IX da Poética (141b) Aristóteles escreve:

Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois bem que poderiam ser postos em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) – diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular“. 

Usei a tradução de Eudoro de Sousa, nos Pensadores

O ofício do historiador, diz Aristóteles, “narrar o que aconteceu”, “dizer as coisas que sucederam”, supõe um certo relevo no mundo, uma destacabilidade entre fato e narrativa. A narrativa do historiador se refere a algo que não se confunde com ela. É nesse sentido que quero insistir na afirmação que o problema filosófico não se confunde com o texto que o apresenta. Isso não nos impede de pensar que existem relações importantes entre a forma de apresentação e o problema apresentado. Mas isso fica para depois.

O tema ficou no ar, a partir da frase de um dos apresentadores.”A filosofia não tem objeto, a filosofia é estilo.”

O tema segue uma tradição bem conhecida, de fundo kantiano, que está presente até mesmo nas “Orientações Curriculares”. Aliás, os dois autores das “Orientações” estavam no evento, o Prof. Antonio Edmilson Paschoal e o Prof. João Carlos Salles Pires da Silva. Ali eles escrevem: a filosofia “sempre resulta não tanto de uma investigação que tematiza diretamente este ou aquele objeto, mas, sobretudo, de um exame de como os objetos nos podem ser dados, como eles se tornam acessíveis.” Assim, o tom por trás da afirmação que a Filosofia não tem objeto usualmente é esse, kantiano, para indicar que “não podemos ser pré-críticos” (foi mais ou menos isso o que disse o Prof. Estevão naquele momento). Uma vez descoberta a África crítica, não há ponto de retorno. 

O tema foi desenvolvido ad nauseam. Seria interessante ler a versão dada por Gilles Gaston Granger no livro Por um Conhecimento Filosófico (Papirus, São Paulo, 1989), devido a notória influência dele nos uspianos. Granger lembra que diferentemente das ciências, que visam “construir modelos abstratos dos fenômenos”, a filosofia não é uma disciplina que pretenda fazer isso ou explicar fatos. E, por isso, a filosofia não tem objeto. Cito:

“Assim, pode-se dizer que a filosofia não tem objeto, por menos que se tenha a preocupação de dar a esta palavra um alcance racionalmente rigoroso, embora bastante amplo, para ser aplicado ao mesmo tempo aos objetos do senso comum e aos objetos da ciência”. 

Por isso mesmo não há maior problema no fato de se encontrar alguém que escreva: “Se é verdade, como penso que é, que a filosofia tem um objeto próprio e que portanto nem todo assunto lhe é pertinente…”. A frase é de Arthur Danto, e inicia o texto “Filosofia e Arte”, que pode ser lido no livro A Transfiguração do Lugar Comum.

No Coisas do Campo escrevi sobre a nota que o MEC publicou na entrada da noite esclarecendo a tal da proposta para o médio. Como era de se esperar – o mundo não vai acabar  ainda – o MEC não reinventou o conhecimento humano. Ainda existe a Matemática e a Geografia, e a Histeria, dâ!!!

O MEC, é nisso que vai dar a notícia, somente gostaria que os professores trocassem umas idéias sobre o trabalho que fazem com a gurizada. 

Menos, como não me canso de dizer. Acho que um dia desses eu me canso, sim.

Diz o jornal Folha de São Paulo de hoje (4 de maio de 2009) que “a intenção é eliminar a atual divisão do conteúdo em 12 disciplinas no ensino médio e criar quatro grupos mais amplos. A proposta será discutida hoje pelo Conselho Nacional de Educação”. 

Segue e texto: “O Ministério da Educação pretende acabar com a divisão por disciplinas presente no atual currículo do ensino médio, o antigo colegial. A proposta do governo é distribuir o conteúdo das atuais 12 matérias em quatro grupos mais amplos (línguas; matemática; humanas; e exatas e biológicas). Na visão do MEC, hoje o currículo é muito fragmentado e o aluno não vê aplicabilidade no programa ministrado, o que reduz o interesse do jovem pela escola e a qualidade do ensino. A mudança ocorrerá por meio de incentivo financeiro e técnico do MEC aos Estados (responsáveis pela etapa), pois a União não pode impor o sistema. O Conselho Nacional de Educação aprecia a proposta hoje e amanhã e deve aprová-la em junho (rito obrigatório). O novo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que deverá substituir o vestibular das universidades federais, será outro indutor, pois também não terá divisão por disciplinas. Segundo a proposta, as escolas terão liberdade para organizar seus currículos, desde que sigam as diretrizes federais e uma base comum. Poderão decidir a forma de distribuição dos conteúdos das disciplinas nos grupos e também o foco do programa (trabalho, ciência, tecnologia ou cultura). Assim, espera-se que o ensino seja mais ajustado às necessidades dos estudantes. O antigo colegial é considerado pelo governo como a etapa mais problemática do sistema educacional. Resultados do Enem mostram que 60% dos alunos do país estudam em escolas abaixo da média nacional. O governo Lula pretende que já no ano que vem, último ano da gestão, algumas redes adotem o programa, de forma experimental. No médio prazo, espera que esteja no país todo. ”A ideia é não oferecer mais um currículo enciclopédico, com 12 disciplinas, em que os meninos dominam pouco a leitura, o entorno, a vida prática”, disse a secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar. Está previsto também o aumento da carga horária (de 2.400 horas para 3.000 horas, acréscimo de 25%). ”A mudança é positiva. Hoje, as disciplinas não conversam entre si”, afirmou Mozart Neves, membro do Conselho Nacional de Educação e presidente-executivo do movimento Todos pela Educação. ”A análise de uma folha de árvore, por exemplo, pode envolver conhecimentos de biologia, química e física. O aluno pode ver sentido no que está aprendendo”, disse Neves. A implementação, no entanto, será complexa, diz o educador. “Precisa reorganizar espaços das escolas e, o que é mais difícil, mudar a cabeça do professor. Eles foram preparados para ensinar em disciplinas. Vai exigir muito treinamento.” O MEC afirma que neste momento trabalha apenas o desenho conceitual. Não há definição de detalhes da implementação ou dos custos.”

O texto não esclarece muito. Antes de dizer qualquer coisa vou esperar pela proposta do CNE. Seria óbvio pensar, por exemplo, que a imensa maioria das sociedades de ensino vai criticar a proposta,  que representaria um enorme retrocesso se mexesse no processo formacional. Uma coisa é pensar o ensino em áreas, conversar entre si, etc. Outra coisa é pensar no profissional que entraria na sala de aula. A ver.