Se queremos respeitar a herança deixada por Paulo Freire como inspirador para as metodologias de ensino devemos levar a sério a idéia de “contexto de vivências do aluno”. Ela inclui, em primeiríssimo lugar, o contexto das aprendizagens escolares, suas vivências conceituais nas diversas disciplinas escolares. A casa e a rua vem depois, from a logical point of view! Assim, quando estamos pensando a didática da filosofia, quando estamos pensando a seleção de atividades e aprendizagens significativas para a disciplina de filosofia, precisamos ter presente:
1. Todas e cada uma das disciplinas e atividades escolares – todas, isso inclui desde a merenda escolar até a Educação Física - comportam, incluem, abrigam, pressupõem, embutem, implicam, uma dimensão reflexiva. Cada uma das disciplinas escolares involucra uma reflexão sobre si mesma: filosofia das ciências, filosofia da história, da arte, da linguagem, filosofia da ação, etc.. Mas nenhum dos profissionais dessas áreas tem obrigação de tratar desses aspectos reflexivos de sua disciplina. Esses professores podem despachar esses temas para o nada ou para a aula de filosofia.
2. Uma escola que tem respeito por si mesma sabe dessas coisas e senta seus professores ao redor da mesa e coloca o planejamento de atividades na roda da conversa. Cada professor tem que ter uma idéia do que está acontecendo na hora anterior. Fora disso, é presépio. Dá para ver porque o ensino médio no Zilbra é a porcaria que é. Ninguém conversa com ninguém, presépio puro, com presentes do 1,99. Estragados.
3. Sendo a filosofia a disciplina que é – seu olho está no todo, veja abaixo – , precisa pensar na dimensão reflexiva das demais disciplinas e fazer dessa reflexão um dos critérios para planejar o que vai fazer. Esse é o ponto de partida.
As postagens abaixo tentam mostrar que há mais do que bom senso para sustentar essas coisas que disse no meu livro e que venho dizendo faz anos, provocando um silêncio ensurdecedor. Junto ao bom senso, podemos encontrar bons textos de grandes que dão base para isso.
3 Comentários
Apoio essa idéia, professor, e acho que ela está muito bem apresentada no primeiro capítulo do seu livro. Evidentemente, não deixa de haver uma grande dificuldade em tirá-la do papel e colocá-la na sala-de-aula, como começo a ver agora que tenho que começar a montar planos de aula, na cadeira de didática de Filosofia.
Mas posto para apontar a mesma dificuldade em âmbito diferente: quando vemos o currículo da filosofia como um presépio. A questão é a seguinte: como dar conta das diferenças que há entre as ilhas da Filosofia sem perder de vista o conjunto? (falo por experiência pessoal, que tenho um nível de produtividade escolar baixo em certas disciplinas, fato que atribuo a isso – não conseguir muitas vezes ligar os mais diferentes temas ao universo global da Filosofia). Como o senhor vê esta dificuldade de conseguir com que os aluno filosofem ainda que tratemos das coisas mais diversas nesse conjunto que estudamos? Ou melhor, Será que os âmbitos da estudo são tão dependentes assim das perspectivas?
Boa questão. Não creio. Os âmbitos de estudo adequados para o nível médio precisam ser identificados e fixados independentemente das perspectivas ou ilhas a que nos filiemos. Os adolescentes precisam ser deixados do lado de fora das pequenas diferenças de escolas, tendências, preferências, etc. O que precisamos levar até eles são os instrumentos conceituais adequados para o pensamento atento, sem deixar de fora o contato com todas as teorias e insights filosóficos que possam qualificar e enriquecer suas percepções. E acho que isso pode e deve ser feito independentemente de minhas preferencias de autores e livros. Acho que esse tema é um dos grandes temas que está na esquina nos esperando e somente não postei mais sobre isso porque esses materiais que tenho colocado aqui são, digamos, parte dos critérios que preciso ir esclarecendo para que a filosofia não padeça do mesmo mal do presépio. Obrigado pelo comentário! Manda mais.
O Bruno levanta um ponto importante e que parece ter a ver com a escolha de critérios pra determinar o que, o quanto e quando abordar diferentes temas e problemas (ou qual história) filosóficos no EM. Toda vez que eu puxo um papo com alguém acerca do EF (vou usar assim pra Ensino de Filosofia), o outro parece utilizar a ausência de unanimidade sobre essa escolha como um escudo, pra logo em seguida fazer uso da arma (argumentativa?) do ensino da história ou o trabalho direto com textos “da tradição” como panacéia.
Off-topic (mas lembrou certos esforços do Ronai para pensar a escola: http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/em-nome-de-uma-falsa-pedagogia.html#comments