Arquivos Mensais: Abril 2009

Nos dias 29 e 30 de abril de 2009, no Campus da UFSM, Prédio 74 sala 2374ocorrerá um evento sobre Filosofia e práticas curriculares.

PROGRAMAÇÃO

29/04/09
10 horas- Conferência

O professor de filosofia e o ensino médio – João Carlos Salles (UFBA)
14 horas – Relatório de Experiência

Tema: Filosofia no vestibular- Frank Thomas Sautter (UFSM) – Noeli Dutra Rossato (UFSM) – Ronai Pires da Rocha (UFSM)

15 horas- Palestra

Sobre o conhecimento – Marta Bayarres (IPA, Uruguai) 16 horas- Palestra
Da utilidade da filosofia para a vida – Antonio E. Paschoal (PUCPR)
17:00 – Cofee Break

18 horas- Conferência

Filosofia e Práticas Curriculares – Ronai Pires da Rocha (UFSM)
30/04/09
10 horas- Conferência

Podemos ensinar filosofia? – Jose Carlos Estevão (USP)

14 horas- Palestra

Título a confirmar – Marianela Lorenzo (IPA / Uruguai)

15 horas – Relatório de Experiência

O LEAF e a formação do professor de Filosofia- Elisete M. Tomazetti (UFSM)
17:00 Cofee Break

18 horas- Conferência

Visualização e Lógica – Frank T. Sautter (UFSM)

Debatedor: Jose Seoane (UDELAR / Uruguai)

Local: CCSH-Campus,prédio 74, sala 2374

Informações: 71.ms.marli@gmail.com

Se queremos respeitar a herança deixada por Paulo Freire como inspirador para as metodologias de ensino devemos levar a sério a idéia de “contexto de vivências do aluno”. Ela inclui, em primeiríssimo lugar, o contexto das aprendizagens escolares, suas vivências conceituais nas diversas disciplinas escolares. A casa e a rua vem depois, from a logical point of view! Assim, quando estamos pensando a didática da filosofia, quando estamos pensando a seleção de atividades e aprendizagens significativas para a disciplina de filosofia, precisamos ter presente:

1. Todas e cada uma das disciplinas e atividades escolares – todas, isso inclui desde a merenda escolar até a Educação Física - comportam, incluem, abrigam, pressupõem, embutem, implicam, uma dimensão reflexiva. Cada uma das disciplinas escolares involucra uma reflexão sobre si mesma: filosofia das ciências, filosofia da história, da arte, da linguagem, filosofia da ação, etc.. Mas nenhum dos profissionais dessas áreas tem obrigação de tratar desses aspectos reflexivos de sua disciplina. Esses professores podem despachar esses temas para o nada ou para a aula de filosofia. 

2. Uma escola que tem respeito por si mesma sabe dessas coisas e senta seus professores ao redor da mesa e coloca o planejamento de atividades na roda da conversa.  Cada professor tem que ter uma idéia do que está acontecendo na hora anterior. Fora disso, é presépio. Dá para ver porque o ensino médio no Zilbra é a porcaria que é. Ninguém conversa com ninguém, presépio puro, com presentes do 1,99. Estragados.

3. Sendo a filosofia a disciplina que é – seu olho está no todo, veja abaixo – , precisa pensar na dimensão reflexiva das demais disciplinas e fazer dessa reflexão um dos critérios para planejar o que vai fazer. Esse é o ponto de partida.

As postagens abaixo tentam mostrar que há mais do que bom senso para sustentar essas coisas que disse no meu livro e que venho dizendo faz anos, provocando um silêncio ensurdecedor. Junto ao bom senso, podemos encontrar bons textos de grandes que dão base para isso.

A crítica à chamada “concepção analítica” no interior da filosofia começou a ser feita ainda nos anos trinta, como se pode ver nos ditados de Wittgenstein, por exemplo, no Livro Azul. Não é de estranhar que nos anos cincoenta tal ambiente de revalorização da vocação  - digamos provisoriamente – universalista e totalizante da filosofia estava maduro. Isso fica evidente nos escritos de Sellars que indico nas postagens abaixo. No escrito A Filosofia e a Imagem Científica do Homem ele escreve:

“(…) é o ‘olho no todo’ [the eye on the whole] o que caracteriza a tarefa filosófica [philosophical enterprise]. Por outro lado, pouca coisa distingue o filósofo do especialista persistentemente reflexivo, o filósofo da história do historiador persistentemente reflexivo. Na medida em que um especialista se preocupa mais em refletir sobre a maneira na qual seu trabalho especializado se liga a outros esforços intelectuais do que em perguntar e responder questões dentro de sua especialidade, podemos dizer que ele tem uma inclinação filosófica. E, de fato, a gente pode ‘ter um olho no todo’ sem ficar olhando para ele todo o tempo. Isso seria uma tarefa infrutífera. Além disso, da mesma forma que acontece com os outros especialistas, o filósofo que se especializa pode derivar grande parte de seu sentido do todo da orientação pré-reflexiva que está em nossa herança comum”.  

 

Em 1962 Wilfrid Sellars escreveu o seguinte:

“Tem sido frequentemente dito nos últimos anos que o objetivo do filósofo não é o de descobrir verdades, e sim ‘analizar’ aquilo que já sabemos. Ora, mesmo que essa expressão, ‘análise’, tenha desempenhado um papel valioso por implicar que a filosofia, enquanto tal não faz uma contribuição substantiva àquilo que sabemos, e que se ocupa de alguma forma em melhorar a maneira de sabê-lo, ela é extremamente desorientadora por causa de seu contraste com ’síntese’. Esse contraste tem como consequencia sugerir que a filosofia é cada vez mais míope, cada vez mais distingue partes dentro de partes, perdendo-as de vista na medida em que novas partes se apresentam ao olhar. Assim, a gente fica tentado a contrastar a visão analítica da filosofia como miopia com a visão sinóptica da verdadeira filosofia. E nos vemos obrigados a admitir que, se o contraste entre ‘análise’ e ’síntese’ fosse a conotação operante na metáfora, então uma filosofia puramente analítica seria uma contradição em termos. A analogia é perturbadora, mesmo se interpretamos  ’análise’ fazendo uma analogia com o desenho de mapas em escalas cada vez maiores da mesma região, o que faz justiça ao elemento sinóptico; a analogia é perturbadora pois teríamos que comparar a filosofia com o desenho de mapas em escalas menores a partir de um mapa original em escala grande; e um mapa em escala menor nesse sentido é uma trivialidade.” (Philosophy and the scientific image of man, primeira parte. Minha tradução foi bastante livre. Consulte o original para ir adiante.). 

O abandono da expressão “filosofia analítica” estava em curso nos anos sessenta, como se vê, e com bons argumentos. É uma pena que ainda hoje tanta gente tenha prazer em fazer esses contrastes – filosofia analítica versus o quê mesmo? – ; falta de leitura, é o que é. 

PS: Como diria a Professora Gisele, vamos nos informar melhor sobre isso.

Faz poucos dias passei em uma banca de revistas e, vendo o exemplar da Nova Escola dedicado ao tema da origem da vida, comprei-o. Quando estava pagando, a proprietária da banca, apontando para o título da matéria, que falava em teoria da evolução, puxou conversa, expressando, sem muitos rodeios, um certo ceticismo: “Eu queria era saber porque os macacos não continuam evoluindo…” Essa pergunta era uma forma polida de me dizer que ela não acreditava muito nessa história de evolução, pois se a teoria fosse verdadeira deveríamos continuar vendo alguma forma de evolução nos macacos, etc.

Fiquei pensando que nas escolas, quando os professores tratam do tema nas aulas de Biologia, devem surgir alguns questionamentos parecidos com esse. Essa pergunta é  interna à disciplina e pode ser resolvida pelo professor com instrumentos simples, como o desenho de uma árvore da vida, na qual fica representada a idéia de ancestralidade comum a todos os seres vivos. A representação da árvore da vida, quando combinada com a indicação das eras geológicas em sucessão – proterozoica, paleozoica, mesozoica, cenozoica – permite ao professor apresentar com certa facilidade a idéia que há um momento – e ali “momento“, ao invés de significar alguns segundos significa “alguns milhões de anos”  no qual há uma bifurcação em um galho da árvore no qual começa a surgir algo que vem a dar no que somos. Sem a combinação de diversas representações conceituais bastante afastadas do cotidiano ficaria difícil ao aluno ter uma idéia mais aproximada da coisa toda.

E onde entra a Filosofia nisso tudo? Até aqui, como você viu, ela não precisa intervir. O professor de Biologia usou noções da Geografia, fez o aluno fazer algumas contas para se dar melhor por conta das escalas, etc, mas nada de Filosofia. 

E se um aluno fizer essa pergunta: “Professor, mas isso é apenas uma teoria, não? E há outras?  A gente é livre para escolher?”

Nesse momento, que vai durar apenas alguns segundos, o professor de Biologia pode dizer assim: “Ah, gente, esse assunto sobre o que é uma teoria, e se existem critérios para a gente escolher uma ou outra, é com o novo professor da escola, o professor de Filosofia. Perguntem para ele, tá?”

Em primeiro lugar, porque ele deve ter a melhor compreensão possível acerca de sua disciplina; a filosofia é um tipo de saber ou conhecimento que ficará pobremente caracterizado se não houver referência às semelhanças e diferenças dele em relação aos conhecimentos e saberes das ciências especiais.

Em segundo lugar, se você leu a expressão “ciências especiais” no parágrafo anterior e a compreendeu como designando disciplinas como física, química, história, artes, etc, deve ter uma noção intuitiva do contraste que foi feito: especiais ou particulares versus o quê? Universal, geral? Desde os tempos de Aristóteles nos acostumamos a dizer e pensar que a filosofia é uma ciência que opera em um nível diferenciado das demais disciplinas particulares. Veja essa passagem famosa da Metafísica:

Há uma ciência que investiga o ser enquanto ser e os atributos que lhe são próprios em virtude de sua natureza. Ora, esta ciência é diversa de todas as chamadas ciências particulares, pois nenhuma delas trata universalmente do ser enquanto ser. Dividem-no, tomar uma parte e dessa estudam os atributos; é o que fazem, por exemplo, as ciências matemáticas.” (na Metafísica, 1003).

Esse tipo de distinção é inelutável e irreversível, em muitos sentidos. Ela nos obriga a pensar no que vamos dizer, positivamente, sobre as relações entre a ciência universal, a Filosofia, e as ciências particulares. A Filosofia não tem relação com elas? Esse caminho parece haver sido interditado na origem, pelo próprio Aristóteles, na medida em que defendia uma espécie de visão arquitetônica e harmoniosa do edifício do conhecimento humano. Veja, sobre isso, o que diz Cassirer de Aristóteles no prefácio de seu monumental livro O Problema do Conhecimento. Se escolhemos o caminho de afirmar relações relevantes entre a filosofia e as ciências particulares, precisamos dizer então quais são elas. 

O tema vai por aí afora.

 

Em sua reflexão sobre as relações entre filosofia e ciência, Sellars se vale da distinção clássica entre “saber como” e “saber que”. Assim, “saber a quantas a gente anda” (knowing one’s way around), que é um aspecto fortemente caracterizador da Filosofia, seria uma forma de saber como, contrastada com o saber que. A idéia é um tanto surpreendente, pois me sugere (ou me obriga a) um enriquecimento da forma como compreendemos ao noção de conhecimento como habilidade, o saber como.

O caso parece ser esse: as disciplinas especiais (história, física, etc), que ele contrasta com a filosofia, são constituídas pelas duas dimensões; um historiador não apenas reflete sobre eventos históricos, sobre os quais acumula informações (saber que), mas também, em algum momento de sua formação e trabalho, reflete sobre o que é pensar historicamente, sobre os métodos de seu trabalho. Essas questões não são, em um sentido forte, históricas; elas dizem respeito a como ele se vê, se situa, em relação a objetivos, critérios e armadilhas da reflexão histórica. Parece ser evidente que sempre que estamos diante de um caso em que podemos dizer que um ser humano sabe como fazer algo – uma habilidade – (desde a pesquisa em história e física, até cozinhar um ovo) podemos igualmente dizer que isso supõe alguma quantidade de conhecimento que – ou seja, conhecimento proposicional -. 

E o caso da Filosofia? Se as disciplinas especiais tem uma certa porção de saber como  em meio a uma vasta região de saber que, “o que caracteriza a filosofia não é um objeto ou tema especial, senão que sua finalidade de saber a quantas andamos (knowing one’s way around) no que diz respeito aos temas das disciplinas especiais.” Isso faz sentido à luz do que ele diz em Empirismo e Filosofia da Mente sobre a Filosofia: ela não é uma ciência, mas não é independente das ciências.

O texto de Sellars que mencionei abaixo, “A Filosofia e a Imagem Científica do Homem”, de 1962, começa assim:

“O objetivo da filosofia, formulado abstratamente, é compreender como as coisas, no sentido mais amplo do termo, se relacionam (hang together) no sentido mais amplo sentido possível do termo. Sob ‘coisas no sentido mais amplo’ eu incluo itens tão radicalmente diferentes, não apenas ‘repolhos e reis’, mas números e deveres, possibilidades e estalar de dedos, experiência estética e morte. Assim, obter sucesso na filosofia seria, para usar um dito contemporâneo, saber a quantas a gente anda (to know one’s way around) com respeito a todas essas coisas, não naquela forma não reflexiva na qual a centopéia da história sabia o que fazer antes de encarar a pergunta “como eu caminho?”, mas na forma refletida que significa que nenhuma fortaleza intelectual está livre de ataque.”

Essa passagem sempre me faz lembrar uma outra, de Wittgenstein que  escreve, nas Investigações Filosóficas, 123: “A philosophical problem has the form: “I don’t know my way about”. Uma tradução possível é essa: “Um problema filosófico tem a forma: ‘Eu não sei a quantas ando’.”

O que é característico da filosofia, indica Sellars, não é uma temática especial, mas o objetivo de saber a quantas se anda (knowing one’s way around) e isso inclui os temas das disciplinas especiais. 

Um bom texto para fomentar debates sobre as relações entre filosofia e ciência é o de Wilfrid Sellars, Empirismo e Filosofia da Mente. Agora está disponível entre nós, publicado pela Vozes em uma tradução da Professora Sofia Albornoz. O capítulo nove, dedicado ao tema da ciência e do cotidiano, gira em torno de uma idéia muito inspiradora: a filosofia não é ciência, mas não é independente da ciência. O texto original é esse: “to confuse the sound idea that philosophy is not science with the mistaken idea that philosophy is independent of science”. 

O texto Empirismo e Filosofia da Mente foi originalmente divulgado em 1956; eram as conferências sobre o Mito do Dado. 

O tema das relações entre filosofia e ciência foi novamente abordado por Sellars quatro anos depois, no famoso texto intitulado “A Filosofia e a Imagem Científica do Homem”. Há uma tradução para o espanhol desse texto. Penso que a gente devia incorporar a leitura desses textos em nossos debates sobre ensino de filosofia. Eles são muito ricos em sugestões sobre como pensar as relações entre nossa disciplina e as disciplinas da área de ciências. O mesmo vale para as disciplinas das demais áreas, ça va sens dire, mas como existem ainda muitos preconceitos entre certos filósofos acerca das ciências, acho que deve-se dar, agora, mais destaque para esse problema.