Revisei hoje com um grupo de alunos os argumentos que temos usado para justificar a necessidade de uma reformulação dos currículos de Filosofia no Ensino Médio. Em primeiro lugar vem o fato que pouco nos ocupamos com temas de ensino de filosofia até a vigência da atual legislação. O tipo de ocupação que tínhamos visava acima de tudo convencer os legisladores da importância e obrigatoriedade da mesma, e pouco se ocupava com temas mais particulares, de natureza curricular e didática. Esse é o quadro geral, no qual ressalta a pouca relevância de estudos curriculares na área. Em segundo lugar, o ensino existente estava fortemente baseado nos poucos manuais existentes e na criatividade pessoal do professor, que desfrutava de ampla liberdade de escolha de atividades, conteúdos, metodologias, sem muitas pressões.
Os manuais de filosofia disponíveis hoje no Brasil foram, em sua grande totalidade, concebidos nos anos setenta e oitenta, e vem crescendo por justaposição de conteúdos. Eles desempenharam um bom papel nesses anos todos, sem dúvida, mas estão datados. Quase todos eles são frágeis nas áreas de lógica e argumentação e guardam poucas conexões com o contexto do saber escolar que está sendo praticado pelo aluno. A Filosofia, uma disciplina com vocação de universalidade, pouco dialoga com as demais disciplinas. Um professor de filosofia, ao usar os manuais usuais, pode dar conta de suas obrigações passando ao largo de maiores referências ao dia-a-dia de aprendizagens escolares do aluno.
A vocação de universalidade da Filosofia precisa ser respeitada no momento do planejamento curricular. Hoje qualquer leitor das “Orientações Curriculares Nacionais” se dá conta que todas as áreas de atividades e conhecimentos escolares são conscientes de duas coisas: de seu papel na “formação crítica e cidadã” do aluno e de que cada área comporta aspectos de natureza filosófica que podem ser tratados pelo professor de filosofia. Assim, o professor de Física pode remeter para a aula de filosofia a discussão sobre as características de uma teoria científica ou do conceito de causalidade: o professor de Artes pode remeter para a aula de filosofia a noção de gosto; o professor de Português pode remeter para a aula de filosofia a conversa sobre uma definição ampla de linguagem ou de signo ou de abstração, e assim por diante.
Eu me apresso a acrescentar que esses temas, mais ou menos, podem ser encontrados nos manuais em vigor. Mas ali o tratamento deles não é feito na presença dessa perspectiva de transversalidade que procuro indicar aqui. Eu a tenho chamado de “transversalidade pedestre”, para indicar essa região mais profunda de nossas operações cognitivas; transversal, porque esses conceitos são esteios, com pequenas diferenças, em mais de uma área significativa da experiência humana; e pedestre, porque esses macro-conceitos na verdade são comuns, usuais. E, mais ainda, mesmo que muitos desses conceitos sejam tratados nos manuais disponíveis, ali eles estão dispersos em meio a uma multidão de outros temas que surgem muito mais por força da tradição filosófica do que de uma reflexão sobre as características das aprendizagens escolares de adolescentes.
Assim, o trabalho que imagino devemos fazer, entre tantas coisas, é o de pensar o mais sistematicamente possível, sobre as características das aprendizagens escolares dos adolescentes, tendo presente o estado da arte em cada uma das atividades e disciplinas escolares. O ponto de partida que estamos usando é a leitura das Orientações Curriculares Nacionais, mas poderia ser qualquer outro que nos falasse sobre “a quantas andamos” no ensino médio. Precisamos, a partir dessas leituras, não apenas listar aquilo que cada uma das áreas já prontamente identificou como aspectos filosóficos, mas também outros temas e conceitos fundamentais que rondam grupos de disciplinas e que podem também rondar a cabeça do adolescente. Eu imagino que no final das contas não vamos encontrar nenhuma novidade espantosa, mas podemos chegar a uma lista mais enxuta de temas que podem ser percebidos pelo estudante como sendo relevantes não apenas na aula de filosofia mas para a aula anterior e a aula seguinte. E essa lista e esses temas irão crescendo não pela justaposição de novidades, mas de forma articulada com o restante do currículo escolar. Se a filosofia e seus conteúdos e atividades for apenas um conjunto a mais de temas em articulação com o todo do currículo, não estaremos apenas traindo Aristóteles e nossa inteira tradição; estaremos mostrando a pequenez de nossa pedagogia e a cara feia de corporação em busca de espaço, alienada e pobre de espírito. Felizmente temos um pouco de tempo pela frente para mostrar que as coisas não precisam ser isso ou apenas a boa vontade de cada um de nós. É possível uma discussão racional sobre critérios de organização curricular, e, no caso da Filosofia, é possível um trabalho fecundo.