Arquivos Mensais: Novembro 2008

Estava vendo um noticiário na tevê quando apareceu a cena de um grupo de alunos protestando contra a greve dos professores estaduais. Uma menina disse mais ou menos isso: “Os professores estão lutando pelos seus direitos, nós estamos aqui lutando pelo nosso direito de ter aulas e aprender”. 

Fiquei pensando na cena como um divisor de águas. Estão certos os professores em lutar pelo piso nacional como base efetiva de seus salários. Estão certos os alunos em lutar por ter aulas, nas quais querem aprender tudo o que tem direito de aprender. O episódio escancara um problema sério sobre o tipo de relação professor-aluno, mas o que eu quero começar a discutir aqui nesse post, ainda que devagar, é o tema dos direitos de aprendizagem, cutucado que fui pela Marta Avancini.

Como eu disse abaixo, o tema do direito de aprendizagem, no meu caso, nada tem a ver diretamente com os Saebs e quetais. No que me diz respeito, entrei nesse tema nos idos de noventa e três, ao começar a participar do trabalho do GEEMPA, em Porto Alegre. Para dar uma referência. Em 1995 a Editora Sulina publicou um pequeno volume intitulado “Celebração do Conhecimento na aprendizagem”, organizado por Esther Grossi, que girava em torno do ideário “todos podem aprender”. A expressão “direito de aprendizagem”, entre outros sentidos, servia como um dístico contra certas desistências profissionais que se tornavam usuais na época, contra certas explicações semi-naturalísticas (alunos que não aprendem porque isso ou aquilo) ou pseudo-políticas, que colocavam a aprendizagem escolar em segundo plano, diante de missões escolares aparentemente mais importantes. Naquele livro publiquei um capítulo intitulado “Em que língua Carlitos chora?”, que posteriormente constou no meu “Sentimentos de Outono”, no qual o tema era exatamente como melhor compreender a noção de aprendizagem nos contextos pedagógicos que ali chamei de “simplificadores”. 

Hoje, quando penso no tema, fico com vontade de usar como referência, mais uma vez (pois faço isso desde os anos oitenta) os escritos de Hannah Arendt sobre educação e a forma como ela sugere que a gente pense a instituição escolar. Com isso ficaria claro que situo o tema dos direitos de aprendizagem num contexto mais amplo, ligado à forma como vemos a instituição “escola”, em especial nos contextos de classes populares. Nesses contextos muitas vezes parece haver uma dicotomia, falsa, entre ver a escola como um espaço de promoção social, de cidadania e auto-estima, que deixa em segundo plano as aprendizagens escolares. Ao se colocar a preservação da auto-estima da criança em primeiro lugar, promove-se um tipo de relação na qual a reprovação escolar é vista como um gesto moral e surgem os ciclos, os represamentos dos alunos em faixas temporais mais dilatadas, o adiamento do desastre por três ou quatro anos. Na raiz disso estão nossas impotências didáticas, não sabemos como promover as aprendizagens de forma a ter mais e melhores aprendizagens em todos; o lado reverso do tema é o desastre didático, o abandono da investigação sobre ensino-aprendizagem, o abandono de estudos de psicologia cognitiva, o abandono de estudos curriculares em favor de foucault e deleuze e guatari e sociologia e política e antropologia e estudos disso e daquilo. O resultado é um só, não sabemos mais didática de coisa nenhuma. E a coisa deu no que deu.

Muita gente vem se dando por conta disso e vem tentando reverter o quadro. Mas falta um mundo e meio para andar. Então, quando falo em “direitos de aprendizagem”, a história começa nos anos setenta e vem vindo. Tentei contar um pouco disso na primeira parte do meu livro, mas há muito mais para se dizer, por certo.

Volto ao tema.

Apenas ontem descobri que além da edição regular, no mês de outubro que termina hoje, a Revista Nova Escola circulou com uma edição especial dedicada à didática da Matemática. Um dos destaques é uma entrevista com o pesquisador francês Gérard Vergnaud, conhecido por seu trabalho no ensino de Matemática. Conheci Vergnaud em uma de suas vindas ao Brasil, ainda nos anos noventa. Ele veio ao Rio de Janeiro e Porto Alegre para falar sobre didática da Matemática e foi assim que tomei contato com a Teoria dos Campos Conceituais que, posteriormente, procurei projetar para a área da Filosofia.  Vergnaud é uma referência internacional na didática da Matemática, e seu trabalho, embora específico, tem sido inspirador em muitas outras áreas.