Eu disse, abaixo, que se levamos a sério uma caracterização da filosofia como um espaço de crítica que uma cultura pode criar para si mesma, nos vemos no meio de problemas pedagógicos especiais, típicos de nossa disciplina.
Que problemas seriam esses? Um deles, o mais geral de todos e que por isso mesmo fica fracamente relacionado ao tema indicado acima, diz respeito à natureza da relação professor-aluno. Esse é, penso eu, um tema pedagógico central. As torções e distorções a que esse tema foi submetido nas últimas décadas acarretam grande parte do que tenho chamado de “perda da cultura pedagógica”. Leituras apressadas de reprodutivistas, esforços de compensação do tecnicismo pedagógico, certos excessos de politização e certas mal-compreensões da “modernidade reflexiva” (Giddens) estão na raiz de um certo extravio nos relacionamentos professor-aluno. Um sintoma desse extravio é a facilidade com que se admite que o professor deve ser amigo dos alunos. A ideologia da amizade entre professor e aluno tem muitas origens, mas o adubo é um só: a miséria dos conceitos pedagógicos.
O problema poderia ser descrito como gramatical, se não fosse tão trágico e profundo. O professor é um representante da cultura e seu papel social é o de promover aprendizagens significativas e valiosas. O interesse e conhecimento que ele deve ter do universo de referência dos alunos não implica amizades ou inimizades. A amizade é um tipo de relacionamento que pressupõe igualdade e simetria. A relação do professor com o aluno pressupõe uma assimetria. Se ambos são seres humanos e nesse sentido podem ser vistos como iguais, está em jogo uma assimetria fundamental, que envolve não apenas conhecimentos e formação diferenciados, mas também responsabilidades diferenciadas diante do mundo. Sobre esse ponto convém ler ou reler Hannah Arendt (A Crise da Educação).
Os “problemas pedagógicos especiais típicos da filosofia” ficam ainda esperando na fila.