Arquivos Mensais: Agosto 2008

Eu disse, abaixo, que se levamos a sério uma caracterização da filosofia como um espaço de crítica que uma cultura pode criar para si mesma, nos vemos no meio de problemas pedagógicos especiais, típicos de nossa disciplina.

Que problemas seriam esses? Um deles, o mais geral de todos e que por isso mesmo fica fracamente relacionado ao tema indicado acima, diz respeito à natureza da relação professor-aluno. Esse é, penso eu, um tema pedagógico central. As torções e distorções a que esse tema foi submetido nas últimas décadas acarretam grande parte do que tenho chamado de “perda da cultura pedagógica”. Leituras apressadas de reprodutivistas, esforços de compensação do tecnicismo pedagógico, certos excessos de politização e certas mal-compreensões da “modernidade reflexiva” (Giddens) estão na raiz de um certo extravio nos relacionamentos professor-aluno. Um sintoma desse extravio é a facilidade com que se admite que o professor deve ser amigo dos alunos. A ideologia da amizade entre professor e aluno tem muitas origens, mas o adubo é um só: a miséria dos conceitos pedagógicos.

O problema poderia ser descrito como gramatical, se não fosse tão trágico e profundo. O professor é um representante da cultura e seu papel social é o de promover aprendizagens significativas e valiosas. O interesse e conhecimento que ele deve ter do universo de referência dos alunos não implica amizades ou inimizades. A amizade é um tipo de relacionamento que pressupõe igualdade e simetria. A relação do professor com o aluno pressupõe uma assimetria. Se ambos são seres humanos e nesse sentido  podem ser vistos como iguais, está em jogo uma assimetria fundamental, que envolve não apenas conhecimentos e formação diferenciados, mas também responsabilidades diferenciadas diante do mundo. Sobre esse ponto convém ler ou reler Hannah Arendt (A Crise da Educação). 

Os “problemas pedagógicos especiais típicos da filosofia” ficam ainda esperando na fila.

Se levamos a sério a idéia que a filosofia, desde sua segunda invenção pelos gregos, é um espaço de auto-avaliação que uma cultura pode criar para si mesmo, ficamos às voltas com problemas pedagógicos consideráveis, que não surgem com a mesma intensidade na maioria das disciplinas escolares. E isso nos coloca diante da penúria de nossos conceitos sobre a relação pedagógica. 

Admito que não pensei muito sobre esse tema que começa a me incomodar, que tenho chamado de “perda da cultura pedagógica”. Esse rótulo, talvez um pouco exagerado, quer indicar algo que considero um fato da história da pedagogia brasileira e de outros lugares: nós, educadores, em algum momento dos anos setenta, começamos a nos interessar por temas de sociologia e antropologia e política da educação, como uma forma de compensação pelo tempo que foi investido em temas que pareciam desprezar esses enfoques. O campo de batalha dessa luta, para quem tem mais de cincoenta anos, como eu, foi a excessiva atenção dedicada a certos temas de fundo psicológico ou informacional, como os estudos de taxionomia de Bloom. Não pensei muito sobre isso, mas o pouco que pensei e vivi me leva a dizer que, ao jogarmos fora a água dessas discussões dos anos sessenta, foi junto a banheira e o bebê. Os professores deixaram de se chamar de professores, preferiam ser chamados de “trabalhadores da educação”, e estudos de psicologia da aprendizagem e planejamento curricular deram lugar a estudos de gênero, poder, dominação, que passavam ao largo do básico da relação pedagógica. Não nos deveríamos surpreender com a crise da educação brasileira hoje, que, em sua essência, é uma crise de ensinagem. Desculpem a palavra, feia, que não existe. 

Volto ao tema.