Amplio aqui um pouquinho o comentário que fiz no pé de um poste abaixo, sobre a forma de tratar a noção de “conhecimento” nas aulas de filosofia. Os manuais que circulam no Brasil, na imensa maioria, como disse antes, quando tratam dessa noção, assumem uma posição muito especial quanto ao relacionamento entre as noções de “crença” e “conhecimento”. Para fazer isso me socorro do livro do Arthur Danto, Filosofia Analítica do Conhecimento.
Como são essas relações? Vamos tomar, como ponto de partida, a caracterização oferecida por Platão no Teeteto. Ali o conceito de “conhecimento” é caracterizado como “crença verdadeira acompanhada de razões”. Entre os problemas suscitados por essa definição um deles diz respeito à forma como compreendemos as relações entre “acreditar” e “saber”. Uma certa tradição filosófica alega que as relações entre a crença e o saber são, de certa forma, inamistosas, isto é, que “acreditar” é, em certo sentido, incompatível com “saber”. Outra tradição assume um ponto de vista oposto. Isso quer dizer que quando alguém afirma saber algo, isso não implica a negação da crença na mesma coisa. Assim, essa segunda posição afirma que “acreditar” é compatível com “saber”.
Essa segunda tradição, chamada de “compatibilista”, afirma que quando alguém afirma saber alguma coisa fica implícito que a pessoa também acredita naquilo. A definição tradicional de conhecimento, que surge no Teeteto, faz parte das teorias compatibilistas da relação entre conhecimento e crença.
Os incompatibilistas impressionam-se com o fato que conhecimento e crença parecem ser conceitos alternativos. Ou bem a gente sabe ou bem a gente acredita. Na apresentação desse tema, Danto faz o seguinte comentário:
“Estou inclinado a supor que a própria filosofia começa com uma distinção entre conhecimento e crença que faz fronteira com o Incompatibilismo. Ela começa aqui, e não com a as afirmações que dizem que o mundo é feito de água (ou fogo, ou deuses), embora, talvez, ela seja encorajada pela incompatibilidade de tais afirmações radicais com o senso comum. Pois se essas afirmações são verdadeiras, o mundo deve realmente ser diferente daquilo que nos aparece, e a distinção entre conhecimento e crença pode então ter sido introduzida para explicar a discrepância. Crença e conhecimento seriam então incompatíveis até o ponto em que consideramos incompatíveis aparência e realidade.”
Ele segue especulando sobre o seguinte ponto: ao se defender a alternatividade dos conceitos de conhecimento e crença estamos pressupondo que é possível identificar algo cuja presença ou ausência determina a aplicação de um ou de outro conceito. Se uma coisa é de cor azul ou de cor vermelha, isso depende da diferença de cores da coisa. No caso dos conceitos de crença e de conhecimento, o compromisso do filósofo é apresentar a diferença, a variação em cada um.
As respostas que a tradição deu para essa questão variam, conforme se pense que o conceito mais claro é o crença ou o de conhecimento. As duas principais respostas são as seguintes:
a) a teoria do sujeito: a crença como um estado; para muitos filósofos, a crença seria um estado, uma condição, provavelmente de natureza psicológica. Assim, quando dizemos que alguém acredita em algo (em uma proposição) estamos atribuindo a essa pessoa uma certa condição. E se dizemos que alguém sabe algo (uma certa proposição, e não meramente que acredita nela), estaríamos igualmente supondo que a pessoa está numa certa condição. O ponto de discussão é o seguinte: parece plausível que a crença seja uma condição, mas é duvidoso que o conhecimento o seja.
b) a teoria do objeto: muitos pensadores são da opinião que o conhecimento é uma relação entre indivíduos e alguma coisa reconhecida como o objeto do conhecimento. Saber uma certa proposição seria então estar em uma certa relação com o objeto, e este objeto é o que torna a proposição verdadeira. Se o conhecimento e a crença são determinados de um mesmo determinável, então a crença deveria ser uma relação, e deveriam haver, de acordo com isso, objetos de crença.
Os manuais de filosofia que enfatizam certas noções como “ilusão”, “ideologia”, no tema do conhecimento, usualmente tem como fonte inspiradora alguma versão de tipo incompatibilista; ter crenças é viver em um mundo de aparências, ilusões, etc. Não é por outra razão que nos nossos manuais empurramos para cima dos estudantes, nas aulas sobre conhecimento, umas noções obscuras de “sujeito” e “objeto” de conhecimento, verdadeiros pastéis de batata indigeríveis por uma pessoa que pensa.
Essas alternativas podem ser superadas ou abandonadas, sugere Danto, pois é muito plausível pensar que a crença e o conhecimento não são alternativas; é nesse ponto que começa a história das teorias compatibilistas, que se tornaram predominantes na epistemologia.
Essa história não chegou aos manuais de filosofia no Brasil. O “Arte”, de Portugal, foi pioneiro nisso.
