Simone, em comentário abaixo, conta das propostas didáticas que está elaborando sobre tópicos como a morte e a sobrevivência da alma; eu gostaria de ligar esse tema com a reunião dessa semana sobre os estágios. Um dos alunos disse que em uma das escolas foi proposto uma abordagem do tema “aniversário de Santa Maria” e em outra escola o tema do “dia das mães”. Esses temas geram dificuldades especiais, em especial a de que o aluno perceba que existe uma conexão relevante com a classe de Filosofia. Parece impossível, e é evidente que os temas não são filosóficos. Mas a situação havia sido criada e era preciso administrá-la didaticamente.
[A situação é exemplar para se compreender as dificuldades do ensino de Filosofia nesse momento em que cada professor e cada escola ainda pode fazer o que bem entender, sem maiores argumentos em defesa de sua proposta. (Veja bem, acho que o professor pode fazer o que bem entender, desde que seu fazer tenha por fundamento uma proposta bem argumentada e que tenha passado por algum tipo de crivo pedagógico-filosófico de pares).]
Para não fugir do assunto: ao conduzir um diálogo em aula podemos criar uma situação de constrangimento desnecessário com perguntas ao aluno sobre as mães de cada um. Uma regra de bom senso deve ser usada pelo professor para nunca fazer perguntas de natureza pessoal-familiar. O mundo das relações familiares e pessoais do aluno deve ser respeitado; ele está sentado no banco escolar na condição de aprendente, e não se mete família no meio desses aprendizados. Alguém dirá: mas isso é impossível, sempre haverá na cabeça dele a possibilidade de qualquer associação dos temas da aula com os temas familiares e individuais. Sim, isso é evidente. E por isso mesmo que devemos tratar desses temas com algum mecanismo que permita ao aluno o distanciamento e a encenação; distanciamento do tema, encenação do tema por meio de literatura, texto, história da filosofia, cinema, arte, piadas, etc.
Quase todos os alunos em uma sala de aula de filosofia tem opiniões sobre vida e morte da alma; o espiritismo, por exemplo, é extremamente difundido no Brasil e sempre haverá um seu representante na aula. Daí a razão para se tratar temas como “morte” com estratégias de distanciamento e encenação. O aluno pode ter o direito de examinar as mais variadas hipóteses de compreensão do tema, sem que necessariamente tenha que, naquele momento, sentir-se pressionado a examinar suas próprias crenças a quente.
O uso de textos da história da filosofia nesse contexto oferece esse espaço de mediação conceitual, mais do que importante, e sim necessário.
No caso da aula em que o gancho era “aniversário de Santa Maria”, o que me ocorreu sugerir foi levar o tema até que ele se transformasse em um debate sobre identidade qualitativa e numérica, por exemplo, usando-se como intermediários alguns paradoxos, como o barco de Teseu.
2 Comentários
Esse espaço de mediação conceitual que o professor citou, se entendi bem, é um espaço onde o aluno pode defender sua privacidade sem se expor à vida pública da sala de aula. Tratar de crenças ou de coisas tão próximas quanto a família é delicado porque toca diretamente na privacidade que o aluno precisa para formular seus conceitos sobre as coisas, sobre o mundo. Não sei se é bem isso que o senhor quis dizer, mas me parece prudente pensar assim e evitar maiores transtornos em sala de aula, não evitar o assunto, mas evitar tocar diretamente naquilo que o aluno acredita.
É exatamente por aí, Mateus.